Histórias de mudanças, lutas e revoluções é um tipo que me desperta uma atração muito particular. Por isso tenho tanta paixão por Hair, V de Vingança, Milk, Um Violinista no Telhado e tantos outros filmes do “gênero”. Histórias Cruzadas tinha tudo para entrar no mesmo time e ser uma obra extremamente poderosa. Mas, diferente das quatro produções citadas, este filme baseado no livro “The Help” possui um roteiro repleto de pequenos tropeços, o que inevitavelmente o enfraquece muito antes de chegar ao final. Desta forma, ao invés de um novo clássico, ganhamos apenas um bom filme, com boas atuações.
Histórias Cruzadas, conta a história de Skeeter Phelan (Emma Stone) uma aspirante a jornalista que decide escrever em pleno anos 60 um livro sobre as empregadas negras dos Estados Unidos. A obra, baseada numa série de entrevistas com empregadas domésticas, irá mudar a forma com a sociedade branca vê as “pessoas de cor”. Escrito e dirigido por Tate Taylor.
Na pressa de apresentar muitos fatos e cruzar tantas histórias, o roteirista vai esquecendo progressivamente de amarrar as pontas do texto. Então, muitos dos conflitos e sub-tramas não exercem função rigorosamente nenhuma na narrativa. Por exemplo, as picuinhas entre as mulheres brancas tomam espaço demais, quando nem se quer são o assunto principal do filme. Ou logo depois, descobrimos que Minny (Octavia Spencer) é violentada pelo marido, e o fato nem sequer gera reflexos na personalidade da personagem ou é retomado posteriormente. De forma parecida, outras cenas surgem completamente deslocadas no decorrer do filme. Algumas envolvendo a vilã Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard) que parecem ser inseridas apenas para ressaltar de novo e de novo o quanto a personagem é má. E por fim, a última aparição da mãe da protagonista, que tenta oferecer uma redenção artificial e aproveita para dar uma nova informação, criada com o único intuito de arrancar o resto das lágrimas do público.
Felizmente, Histórias Cruzadas acha um caminho no meio de tantos buracos. A discussão étnica é poderosa, em especial no momento em que Skeeter questiona como a sociedade branca pode tratar tão mal as pessoas que criam os seus filhos. Chega a dar calafrios pensar que aquelas crianças fofinhas, um dia se tornarão tão podres quanto os pais brancos que parecem ter medo de tocar nos próprios filhos. Desta forma, chega a ser tocante reparar no amor e dedicação que as empregadas negras oferecem aos pequenos, mesmo sabendo da transformação que está por vir. E o flashback da juventude da protagonista ressalta essa visão bonita em relação ao carinho das empregadas, trazendo cores agradáveis e uma aura quase angelical para a personagem de Cicely Tyson, em contraponto com as cenas de constante tensão que envolvem a verdadeira mãe.
Quando um ou outro momento do roteiro dá uma fragilizada na trama, o competentíssimo elenco se impõe para salvar o filme. O time de atores faz um trabalho fantástico, em especial Viola Davis, que investe em brilhantes sutilezas, e Jessica Chastain, que realiza a proeza de salvar a subtrama extremamente boba de sua personagem. Pena que as maiores chances de ganhar o Oscar estejam nas mãos de Octavia Spencer, justamente a pior entre as principais. Não que a atriz seja ruim, mas a composição que ela oferece a Minny não foge muito dos clichês de negra americana, com todas intonações e balançadas de cabeça habituais.
Faltou, então, a Histórias Cruzadas um pouco de foco no assunto que queria discutir, a quantidade de informação enfraqueceu demais o filme. O sucesso estrondoso nos Estados Unidos e as diversas indicações aos prêmios de final de ano, só mostram como os americanos se contentam com pouco conteúdo quando se trata de um “feel good movie”. Se Tate Taylor desse verdadeiro peso, por exemplo, ao sofrimento de Aibileen para usar o banheiro externo, talvez Histórias Cruzadas se tornasse um grande filme. Mas ao invés disso ele prefere ressaltar os milhares de conflitos fúteis entre as mulheres brancas. E assim, todas as suas boas intenções vão por água abaixo.
Filme certificado com o Prêmio Panda de Prata.
(*) Jessica Chastain é simplesmente a melhor atriz de 2011.
3 de fevereiro de 2012






















