Submarino.com.br

Cinema Crítica: Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2
O desfecho dos sonhos para a história do menino que sobreviveu. Cotação: OURO.

10 anos. Uma década para se percorrer a história do menino que sobreviveu, adaptação dos livros homônimos de J.K. Rowling. Chega ao fim em 2011 a franquia mais lucrativa da história do cinema, deixando órfã uma geração inteira de jovens que cresceram e evoluíram junto com ela. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2encerra a saga de forma eficiente, emocionante e poética, fechando um ciclo que começou lá em 2001 naquele triste e solitário armário sob a escada.

Escrito por Steve Kloves e dirigido por David Yates, “Harry Potter 7.2” (para facilitar a leitura) continua a jornada de Harry (Daniel Radcliffe), Rony (Rupert Grint) e Hermione (Emma Watson) exatamente de onde parou no filme anterior. Os três precisam encontrar o resto das horcruxes para destruir de vez todos os pedaços de alma de Voldemort (Ralph Fiennes). Depois de uma invasão ao banco de Gringotes, o trio vai parar justamente aonde tudo começou: Hogwarts.

Acho que o mais fascinante de toda a franquia Harry Potter é observar o lento e gradual amadurecimento dos filmes a cada capítulo. A saga começou como tinha que começar, com Harry Potter e a Pedra Filosofal, um filme infantil, alegre e ligeiramente cartunesco. Nada mais justo, afinal se tratava de uma história protagonizada por crianças, aonde todo o clima divertido e colorido retratava a visão de crianças. Incluindo a forma de mostrar a magia como algo encantador, os bruxos adultos de forma caricata e o próprio filme como um mundo de aventuras e diversão. Com o tempo, e a entrada de novos diretores mais maduros, os filmes, igualmente aos livros, foram ficando mais densos e mais sombrios. A ameaça de Voldemort se tornou mais palpável, não como um “vilãozinho malvado que quer acabar com o mocinho”, mas como um ditador da pior espécie que jamais hesitaria em implantar seu regime de terror e intolerância. E ai que surge David Yates, diretor da franquia desde Ordem da Fênix, que acostumado com filmes políticos, trouxe a saga para um campo mais real e afundou os filmes em fotografias escurecidas e músicas melancólicas, justamente para retratar o momento de desespero que os personagens estavam passando. Assim, a magia deixou de ser algo divertido, os corredores de Hogwarts deixaram de ser iluminados e foram mergulhados na escuridão, os bruxos anteriormente excêntricos se tornaram pessoas cansadas e deprimidas e os próprios protagonistas, de crianças engraçadinhas acabaram como jovens calados e melancólicos. A infância se foi, até rápida demais, e deu lugar à realidade (ainda que fantástica) aonde a ameaça é constante e a morte é um tema recorrente, como as cenas com corpos no chão de Hogwarts conseguem muito bem evidenciar. Harry Potter 7.2 é só o ápice de toda essa evolução, um clímax que consegue ser emocionante, doloroso e nostálgico ao mesmo tempo, e respeitar tudo que foi construído nestes 10 anos de franquia.

Claramente preocupado em mostrar mais cenas de ação que o seu antecessor, Harry Potter 7.2 possui muitos momentos de tirar o fôlego, ao mesmo tempo que consegue ser pausado e contemplativo quando necessário. E aqui, a mão de David Yates pesa mais do que nunca. Depois do começo bom e adequado em Ordem da Fênix, nos últimos 4 anos, Yates mostra todo seu crescimento como cineasta e contador de histórias, ao conseguir planejar cenas de ação espetaculares, ao mesmo tempo que realiza cenas mais pausadas com rara sensibilidade. E se em certos momentos, Yates se entrega a algumas convenções hollywoodianas desnecessárias (como o “salvo no último segundo”) ou deixa de dar a devida carga emocional para algumas mortes (como de Lupin, Tonks e Bellatrix), isso em nada compromete seu trabalho no filme e na franquia como um todo.

Ao falar de evolução, como não mencionar o elenco excepcional desta saga? Que prazer gigantesco é poder assistir a cada filme o trabalho de nomes tão competentes como Alan Rickman, Michael Gambon, Helena Bonham Carter, John Hurt, Jason Isaacs, Maggie Smith, Jim Broadbent, David Thewlis, Julie Walters, Mark Williams, Gary Oldman e Ralph Fiennes. O primeiro finalmente podendo quebrar a casca de seu personagem e mostrar o lado humano de Severo Snape (que belos flashbacks!). Enquanto o último surge ensandecido e completamente grotesco, conseguindo que o espectador realmente sinta nojo e repúdio de Voldemort. Mas claro que o grande destaque fica mesmo para o trio principal. Rupert Grint continua seguro como sempre, ainda afiado nos (raros) momentos cômicos. Daniel Radcliffe faz, possivelmente, sua melhor aparição como Harry Potter ao mostrar toda a dor de um rapaz que sofreu demais pra tão pouca idade. E, por último, Emma Watson dá um show de sensibilidade e transforma Hermione na personagem mais interessante do trio, demonstrando toda a evolução que ela, e os dois rapazes também, tiveram como atores e profissionais.

Para completar, dois artistas importantes devem ser lembrados. O primeiro é Alexandre Desplat (indicado ao último Oscar por O Discurso do Rei) que investe em uma trilha sonora que beira a perfeição, trazendo toda a tristeza das batalhas, os momentos de nostalgia ao evocar os acordes de John Williams e se ausentando quando o silêncio é necessário. O segundo é Eduardo Serra, diretor de fotografia de 7.1 e 7.2, que além do belo trabalho que fez no filme como um todo, reestabeleceu um pouco das cores mais agradáveis de Harry Potter e a Pedra Filosofal durante o epílogo, o que transmitiu uma sensação de ciclo se fechando muito pertinente.

É duro imaginar que esta é a última vez que escrevo sobre Harry Potter. O ato de dizer “adeus” se tornou mais difícil que parece, embora não deixe de ser importante o fim ter chegado, afinal depois de tudo que esses personagens passaram, eles merecem ter um pouco de privacidade. Mas ao mesmo tempo, o diretor parece entender como os fãs estão se sentindo e nos dá um último e emocionante presente. Obrigado David Yates. Obrigado por terminar essa jornada tão maravilhosa com a imagem dos três personagens juntos, enfim, em paz.

Filme certificado com o Prêmio Panda de Ouro.

Obs: Não se incomodem com o 3D, não vale o ingresso. Vai no 2D como sempre foi.

Obs 2: Talvez por estar tomado pela emoção, não deixei muito claro no texto que apesar de Harry Potter 7.2 ser um filme muito bom, ainda prefiro o 7.1. Acho mais forte e com uma narrativa mais interessante. Mas para os corneteiros de plantão, uma dica: assistam os dois filmes em seguida. Pronto! Você terá um grande filme de 4 horas praticamente perfeito para encerrar esta série tão linda.

Veja mais:

Ass. Eduardo*
*Acabou Star Wars, Harry Potter, Indiana Jones, Senhor dos Anéis, Heroes… quando acabar Batman e Dexter eu faço o que?


  Publicado por Eduardo Cabanas *
  (*)
 
  16 de julho de 2011



Deixe um Comentário

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>